
O barulho do aparelho que, agora controlava seus batimentos, soava como sinos da igreja central em meus ouvidos, eram ensurdecedores e, por mais que desejasse, os minutos pareciam não passar. Um turbilhão de pensamentos invadia minha mente, imagens começaram a aparecer como num flashback, tudo se misturou palavras ditas, sorrisos, sons já não sabiam ao certo de onde vinham.
Quando dei por mim estava do lado de fora do quarto, com aquele barulho horrível ainda ecoando em meus ouvidos, olhei pelo pequeno vidro e lá uma equipe de médicos tentava reanimá-la com choques, para mim não passava de um sonho ruim, um pesadelo do qual eu não via a hora de acordar.
Um dos médicos saiu do quarto e me olhando com profundo pesar disse “Sinto muito!”, sinto muito repeti eu, várias e várias vezes, aquelas palavras me deram conta do meu pesadelo, eu não a tinha mais comigo, havia perdido seu sorriso para sempre.
Tudo passou então novamente por meus pensamentos, como em um vídeo eu a vi. Ela estava tão linda da última vez, disse que me amava com tanta intensidade e, nosso último beijo, foi de longe, o melhor de todos os que havíamos dado, mas nós discutimos, por um motivo tão banal, ela disse que não nos veríamos mais, de certo modo acertou direitinho, ao invés de abraçá-la e dizer que aquilo iria passar, que eu a amava e que não brigaríamos mais, concordei e disse que não esperava mesmo vê-la novamente, achei que tudo seria como das outras vezes, que discutiríamos e no outro dia pediríamos desculpas um para o outro. Mas dessa vez foi diferente.
Nervosa, ela pegou meu carro, sem saber dirigir direito, pois ainda não tinha habilitação, e saiu chorando da festa, ainda tentei impedi-la, mas me pediu para sair da frente, e achei melhor respeitar, mesmo assim fui atrás. A pista estava com trechos interditados e mal iluminados, quando tentou voltar pelo mesmo caminho pelo qual tinha ido, bateu de frente com um caminhão e eu vi todo o acidente sem poder fazer qualquer coisa para impedi-lo.
Ainda sentia o último aperto que ela deu em minhas mãos, quando disse que a amava, pouco antes de o aparelho apitar seu último segundo de vida. Teria sido meu perdão? Nunca imaginei vê-la como estava vendo agora, com um vestido inteiramente branco, cabelos soltos e muito lisos, maquiagem clara e seus olhos fechados, olhos que antes haviam chorado por mim, olhos que já demonstraram tanto amor, agora estavam fechados para sempre.
Era estranho dizer “para sempre” naquela situação, porque foi a frase que tantas vezes usamos para designar o destino do nosso amor. Ainda me lembro da primeira vez em que dissemos “eu te amo” um para o outro e escrevemos em uma árvore o nosso “para sempre”, ela estava sentada ao meu lado e atrás de nós estava a “nossa árvore”, no momento que me olhou com aqueles lindos olhos e sorriu, descobri que a amava e que seria para sempre.
Estaria ainda em pé a nossa árvore, ou eu a teria perdido assim como perdi aquele sorriso que me fazia sorrir também?
Quando dei por mim estava chorando descontrolado e, ao lado do caixão onde estava a garota mais doce que eu havia conhecido. Junto com as lágrimas vieram as palavras e eu já não podia contê-las. Porque se foi? Eu já não entendo, ainda lembro que me prometeu que seria para sempre, que nós seríamos para sempre, você seria minha para sempre. Tudo era perfeito com você, apenas me diga por que ou me leve junto, já não vejo razão para mim sem seu olhar, seu sorriso. Amor, amanhã você não estará aqui para que eu possa te dar bom dia ou desejar como numa prece uma boa noite para você antes de dormir, você não estará aqui para que eu possa te acordar com um eu te amo ou um beijo.
Bebê, amanhã eu não verei mais o seu sorriso, só o terei nas minhas lembranças, amanhã você não dirá que me ama. Princesa, você não lerá mais para mim, pois estará longe demais pra que eu possa ouvir sua voz, não me chamará mais de “meu” ou me dirá apelidos carinhosos, nem mesmo brigará comigo. Meu anjo, eu sentirei tanto a sua falta. Sei que não te disse isso quando tive oportunidade, apenas briguei com você e segui o momento de raiva, por ser tolo e estúpido, mas me arrependo de cada palavra. Sinto uma tremenda vontade de voltar atrás e não deixar que você fuja de mim, mas agora sinto que te perdi da pior maneira que poderia perder alguém e isso dói tanto. Só queria ouvir sua voz.
Eu preciso tanto de você aqui e agora, não como está, mas como era, preciso que olhe para mim, que sorria e diga como tantas outras vezes, “Estou aqui com você agora e sempre vou estar não se preocupe”. Por mais que queira sei que não ia acontecer, eu tinha, mas perdi agora você está inalcançável e quero acreditar, que é agora a mais linda estrela do céu, eu sempre irei te amar e serás sempre minha. Até logo amor!
Depois de me despedir do meu amor, saí daquele lugar, precisava me afastar dali e ficar sozinho. Caminhei até o parque central e fui à procura da árvore que carregava nossa promessa, avistei nossos nomes e me afastei pra caminhar novamente. Quando voltei havia outro casal ali, escrevendo tudo como nós escrevemos e desejando que nada fosse forte o bastante para separá-los, assim como nós fizemos, e agora só eu estava ali.
Sai dali, tudo me lembrava seu sorriso, daquela que havia segurado meu coração nas mãos e a quem eu havia prometido amor eterno. Passei então a procurar um motivo, um único apenas, que pudesse me levar a esquecê-la e seguir em frente, não encontrei. Porque todos no final me levavam a ela e eu já não sabia o que fazer, estava desnorteado.
Meu celular de repente toca “Três anos hoje amor! Parabéns, eu te amo!”, o lembrete que, uma semana atrás, ela havia deixado para que eu não esquecesse nosso aniversário de namoro. O que eu faria sem ela? Foi só o que se passou em minha mente no momento.
Fui para casa, por todo o quarto fotos nossas, chorei. Como nunca havia chorado em todos esses anos, e talvez em toda a minha vida. Então percebi o que já sabia, mas nunca tinha vindo á tona, nada faria sentido sem ela.
Lembrei-me do que ela me disse sobre voar “Amor, quando aprendermos a voar iremos de encontro a quem quisermos ou onde quisermos, no momento que acharmos que devemos ir. Não é maravilhoso?”. Como fazem os pássaros, pensei. Então eu voei.
Escrito por: Janaína Nunes Lança
Idade: 16 anos
Cidade: Santa Bárbara d'Oeste-SP
